NOSSO BLOG

NOSSO BLOG

 

 

 

"Beijinho no ombro pra eles." É a mensagem de Gustavo Bicca aos preconceituosos, a todos que duvidaram. E foram muitos deles no seu caminho. Parafraseando Valesca Popozuda, hoje ele mostra a alegria de sua vitória e faz o "recalque passar longe". Guga, como é conhecido, tem síndrome de down e acaba de concluir a graduação em Jornalismo, pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Apenas mais um passo marcante no longo caminho repleto de feitos alcançados pelo pelotense de 39 anos.

No entanto, ele vem de um tempo difícil. O preconceito era ainda mais forte do que o enfrentado hoje. "Quando ele nasceu, as pessoas nem carregavam crianças down na rua", recorda a mãe, a médica Marilene Bicca. O caminho de vitórias foi trilhado passo a passo, sempre repleto de desafios. Ela lembra que foi a Porto Alegre quando o filho nasceu, para buscar referências médicas, ainda rasas por aqui. A sugestão era tratá-lo normalmente, tendo a inclusão como a base de tudo. Mas havia dois adversários pela frente: a falta de materiais pedagógicos e a desconfiança na hora de encontrar escolas. Quando encontrou uma instituição de ensino particular para estudar, na qual se alfabetizou rapidamente, tudo começou a dar certo. Por um tempo. Logo, por questões financeiras, a escola fechou. Veio um novo desafio pela frente - palavra que se repete frequentemente na vida de Guga. Foi para a Escola Estadual de Ensino Médio Santa Rita, onde terminou o Ensino Fundamental. Lá, a adaptação novamente foi ótima.

Concluído esse passo, estudou plantas medicinais. Na sequência, tornou-se aluno do atual Instituto Federal Sul-rio-grandense, Campus Visconde da Graça (IFSul - CaVG). Era o período em que a instituição ainda não era vinculada ao IF, mas à Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Cursou Agroindústria, fez estágio em uma padaria tradicional da cidade e tornou-se o primeiro aluno com síndrome de down a concluir o curso técnico na América do Sul, honraria que fez representantes do Ministério da Educação (MEC) virem à formatura.

Interesse Pelo Jornalismo

Pai e uma irmã agrônomos. Mãe e irmão médicos. Gustavo quis trazer a diversidade também para o ambiente do lar. Com paixão pela fotografia e dono de um blog de música sertaneja, interessou-se pelo Jornalismo. A falta de representatividade de pessoas com down na mídia também foi um estímulo. Fez o vestibular e ingressou na UCPel. Embora tenha enfrentado preconceito de algumas mentes mais fechadas, o "bloqueio humano", como define sua mãe, o entrosamento com os colegas foi rápido. "Eu gostei da recepção. Colegas, funcionários…", relata Guga, citando uma lista infinita de amizades criadas. Participou de diversos projetos de fotografia e de texto, em locais como a Ilha dos Marinheiros e a Vila Princesa. Seu tema de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi intitulado Representatividade da síndrome de down nas mídias de massa e trouxe entrevistas com pessoas com e sem down.

Mabel Teixeira, que foi sua professora durante a graduação e orientadora do TCC, explica que ele concluiu a graduação cumprindo todos os pré-requisitos e as cadeiras necessárias. "O processo todo foi supertranquilo", recorda. A adaptação e a necessidade de ressaltar pontos fortes e de atenuar dificuldades é igual para todos os alunos. A escolha do tema foi toda dele, e Mabel teve influência apenas nas questões metodológicas. Ela vê o projeto contrastando com a própria história do acadêmico. Foi uma resposta a quem duvidava e, em função de todo o preconceito social existente, tornou-se também um exemplo de superação e potencialidade.

O convívio com os colegas era exemplar. Mesmo lidando com alunos de diferentes turmas, sua personalidade acolhedora lhe fez ficar com uma gama enorme de amizades. E, para a professora Mabel, ainda mais marcante. "Foi um presente. Provavelmente a experiência mais gratificante de toda a minha carreira", define.

Hobbys

Concluída a graduação, Guga diz que quer descansar um pouco. Mas não para. Vive cercado de livros, CDs e é afeito às pesquisas, sendo conhecedor de variados temas. Jornalista e técnico em Agroindústria são apenas duas de suas atribuições. Pretende em algum momento retomar o blog Espaço sertanejo, no qual fazia análises de músicas desse gênero e também country. Tudo vindo de sua coleção, com mais de mil CDs.

Gustavo também cultiva flores. Gosta de cozinhar, principalmente criando novos sanduíches. E é um pintor de mão cheia. Daqueles com trabalhos em exposições e prêmios no armário. "Aqui é profissional, né, meu velho. Nada de amador", brinca. Com suas diversas facetas e potencialidades, Guga se vê no caminho de trazer uma continuação diferente e moderna para o Jornalismo, servindo de exemplo para outras pessoas com down. "Dando espaço pra eles entrarem no rumo do Jornalismo." E com seu carisma singular, vai colecionando amigos e feitos novos a cada dia, mostrando que o impossível só existe para quem é travado por seus preconceitos.

 

FONTE: Diário Popular TEXTO DE: Lucas Kurz